Palestra apresentada no Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor em 25 de Abril de 2017.
(O Livro dos Espíritos, perguntas 823 e 824)
O
historiador francês Philippe Ariès escreveu um livro chamado “História da Morte
no Ocidente”. Comentando esse trabalho, outro historiador, o estadunidense
Robert Darnton, diz-nos que o enterro cristão, no início, inverteu a prática
dos patrícios romanos, que eram enterrados em mausoléus individuais fora da
cidade.
Os primeiros
cristãos tinham uma crença de tipo mágico na eficácia dos enterros próximos às
relíquias de santos e, dessa forma, davam preferência ao sepultamento nas
igrejas situadas no centro das cidades. Durante um milênio, esse sepultamento
foi basicamente coletivo. Os ricos e bem-nascidos eram colocados sob lajes do
chão da igreja, as pessoas simples eram enterradas em valas no adro. Quando o
lugar ficava lotado, os ossos eram transferidos para ossuários e carneiros em
comum, onde eram empilhados e dispostos com um senso artístico macabro.
Na
Alta Idade Média (por volta do ano 470 até o ano 1000), a pessoa que estava
prestes a desencarnar desempenhava um papel central na preparação do seu
passamento. Naquela época, havia um rito prescrito para o que seria considerado
uma boa morte. Assim, a arte de bem morrer seria um dos temas literários e
iconográficos (ou seja, da produção de imagens) dos mais populares e difundidos
no século XV (pelos anos 1400, já durante a Era Moderna).
Basílica e Convento de Santo Domingos, em Lima, Peru. O crânio de San Martin de Porres dentro da Igreja. O restante do seu corpo está sepultado em outra parte do Convento.
Basílica e Convento de Santo Domingos, em Lima, Peru. Cada retângulo desse, uma pessoa enterrada. Ao fundo, os restos de Santa Rosa de Lima. Seu crânio está no altar da Igreja.
Basílica e Convento de Santo Domingos, em Lima, Peru. Onde está enterrado o restante do corpo de Santa Rosa de Lima.
Basília e Convento de São Francisco de Assis, em Lima, Peru. Catacumbas.
Basília e Convento de São Francisco de Assis, em Lima, Peru. Catacumbas.
Basília e Convento de São Francisco de Assis, em Lima, Peru. Catacumbas.
Basílica Menor e Convento de São Pedro, em Lima, Peru. A placa marca o local onde foi enterrado o coração do Conde de Lemos, Vice-Rei do Peru, colocado aí obedecendo a disposições testamentárias.
Basílica Menor e Convento de São Pedro, em Lima, Peru. Caixas de ossos num altar lateral da igreja.
A
vida era muito frágil. As pessoas não viviam tanto como hoje em dia. Os perigos
de doenças, guerras e fome eram muito mais presentes que na atualidade. O homem
medieval e do início da Era Moderna tinha verdadeiro horror à morte súbita,
porque ela retiraria dele a oportunidade de participar desse momento crítico.
Não por acaso, quando um médico estava atendendo a algum doente e reconhecesse que
o caso era delicado ele tinha como primeiro dever chamar um padre, para que a
criatura não desencarnasse sem assistência religiosa. Além disso, o médico
tinha a obrigação de avisar aos pacientes caso identificasse a mais remota
possibilidade deles desencarnarem, a fim de que os doentes pudessem dispor de
oportunidade e tempo de se prepararem para a morte, enfrentando-a de
acordo com o cerimonial tradicional, no leito. De acordo com Darnton
A cena do
leito de morte ocorria em público. Padres, médicos, parentes, amigos e até os
transeuntes se apinhavam no aposento do moribundo. Numa “boa morte” ele
avaliava sua vida, chamava e perdoava seus inimigos, abençoava seus filhos,
arrependia-se de seus pecados e recebia os últimos sacramentos.
Variando conforme a época, condição
social e lugar, os testamentos davam instruções “cuidadosamente detalhadas para o funeral e o luto, especificando a
composição do cortejo fúnebre, o número de velas a serem levadas, o caráter do
enterro e o número de missas a serem rezadas por sua alma”.
No Brasil, a historiadora Elene da Costa Oliveira, citando o trabalho do
historiador João José Reis, observa que, no testamento, encontravam-se
elementos da religião católica. Algo como “em
nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, Três pessoas e um só
Deus verdadeiro”,
seguindo-se a recomendação da alma para Deus: “Primeiramente encomendo minha alma à SS. Trindade, que criou; e rogo
ao Padre Eterno, pela morte e paixão de seu unigênito filho, a queira receber,
como recebeu a sua”.
A historiadora, analisando treze testamentos, verificou a quantidade de missas
solicitadas por aqueles que se preparavam para a morte. O maior número que ela
encontrou foi de 150 missas.
Não pensem que é um número muito elevado. Robert Darnton, em seu artigo, fala
que alguns daqueles que faziam testamentos, pagavam “centenas ou milhares de missas a serem rezadas por eles em ocasiões especificadas,
muitas vezes em caráter perpétuo”.
O historiador estadunidense conta-nos,
ainda, que
No começo do
século XVII, os funerais eram cerimônias elaboradas, principalmente, mas não
exclusivamente, entre os ricos e bem nascidos. Uma longa procissão acompanhava
o caixão desde a casa dos parentes até a igreja, percorrendo a cidade de acordo
com um circuito predeterminado. Treze pobres carregavam, numa das mãos,
archotes decorados com o brasão ou as iniciais do falecido e, na outra, o
tecido que ganhavam dele como presente cerimonial. Padres e freiras em trajes
de cerimônia, diretores de hospitais, bandos de órfãos pobres, companheiros de
irmandades religiosas seguiam em fila, carregando archotes e velas, que
iluminavam as ruas. Os sinos dobravam por
toda a parte, e todo mundo sabia por quem, pois a morte incluía a exibição, a
demonstração do status por uma coletividade, que utilizava a cerimônia para
expressar sua ordem e a posição do falecido dentro dela.
No
Brasil, Elene Oliveira encontrou um testamento onde eram descritos os gastos
possíveis com um funeral. A banda que tocaria no funeral, os carregadores do caixão,
os decoradores da casa (para o velório), o padre e o sacristão eram remunerados.
Ela conta, ainda, que os pobres participaram do cortejo fúnebre porque, muitas
vezes, eram distribuídas esmolas deixadas, em testamento, por aquele que
desencarnara. Muitos escravos, nestas ocasiões, adquiriam a liberdade, uma vez
que seus senhores deixavam essa vontade expressa nos seus testamentos.
Allan Kardec, na questão 823, indaga aos
Espíritos Superiores “Donde nasce o
desejo que o homem sente de perpetuar sua memória por meio de monumentos
fúnebres?”,
ao que eles respondem: “Último ato de
orgulho”.
O homem medieval era muito religioso, sem dúvidas. Acontece, porém, que a
religião tradicional incorporou elementos formalistas do judaísmo e, mesmo, do
paganismo romano, fazendo com que o espírito – no sentido de essência – do
Cristianismo, fosse abafado e colocado em segundo plano pela ritualística, pelo
atendimento formal de determinado número de ações. O esforço por se levar uma
vista justa, correta, foi deixado de lado porque se acreditava que poderiam
chegar ao outro lado da vida – naquele momento, ao céu – se eles atendessem a
um determinado número de rituais. A aproximação da hora da morte, certamente,
fazia com que muita gente repensasse suas ações e tivesse atitudes sinceras de
arrependimento e mudança. Porém, muita gente apegada aos protocolos da religião
tradicional acreditava que, desobrigando-se daqueles rituais de acordo com o
costume, estariam quites com Deus, como quem desejaria colocar a alma num alvejante
poderoso – “Cloro” ou “Vanish” – para deixa-la pura. Daí a quantidade
interminável de missas.
Em certa ocasião, quando o Espírito
André Luiz fazia sua estreia nos trabalhos assistenciais de Nosso Lar – ele
conta-nos a experiência em seu famoso livro de mesmo nome – as equipes de
socorro da colônia espiritual levaram, resgatados do Umbral (região
intermediária, ainda muito próxima à Terra onde se demoram Espíritos sofredores
e ignorantes) alguns desencarnados em condição de desequilíbrio para atendimento.
Ele vê uma senhora e resolve ajuda-la. Dando corda para que ela falasse, a
senhora afirma-lhe que foi mulher de muito bons costumes. Que teria feito muita
caridade e que havia rezado muito, como sincera devota. Porém, depois de
desencarnada, havia sido cercada por “espíritos diabólicos”, que a prenderam.
Porém, não perdera a esperança de ser libertada porque, afinal, havia deixado
dinheiro para que fossem celebradas missas mensais para seu descanso. Indagada
por André Luiz pelas razões que a levaram a passar por difícil situação no
além-túmulo, disse que, apesar de ter se esforçado por ser boa religiosa,
ninguém estava livre de pecados. Possuía escravos que, de vez em quando, ela
mandava aplicar corretivos. Segundo ela,
Não raro algum
negro morria no tronco para escarmento geral; outras vezes, era obrigada a
vender as mães cativas, separando-as dos filhos, por questões de harmonia
doméstica. Nessas ocasiões, sentia morder-me a consciência, mas confessava-me todos os meses, quando o
padre Amâncio visitava a fazenda e, depois
da comunhão, estava livre dessas faltas veniais, porque, recebendo a absolvição
no confessionário e ingerindo a sagrada partícula, estava novamente em dia com
todos os meus deveres para com o mundo e com Deus.
Para ela, não havia nada demais possuir
escravos, uma vez que até os bispos os tinham. Disse, por último, que o padre
ensinara-lhe que os africanos seriam nascidos apenas para servirem no
cativeiro. Parece-me que as coisas não saíram, lá, muito bem como ela achava. Ela,
como tantos outros, achava que a ritualística da religião, e não a mudança
interior, era suficiente para limpar a alma e prepara-la para o ingresso na
outra vida.
Ainda há outro elemento a considerar. O
desejo consignado em testamento de distribuir-se bens aos pobres, de se fazer doações
à igrejas e irmandades, a libertação de cativos e, principalmente, a
ritualística, suntuosidade e luxo dos funerais, como diz Darnton, era para
marcar sua posição naquela sociedade e, por consequência, para contrastar com a
dos outros, daqueles que não poderiam exibir tanto. Era para demonstrar status,
poder.
Allan
Kardec publicou “O Livro dos Espíritos” em 1857, no século XIX. Em finais do
século XVIII (anos 1701 em diante), de acordo com Darnton, os administradores
franceses passaram a considerar insalubre o costume de sepultamento dos mortos
dentro de igrejas, proibindo-os. Os cemitérios passaram, então, a serem
construídos nos limites das cidades. “O
túmulo pessoal, encimado por uma pedra com uma inscrição biográfica, passou a
ser visto como uma reserva inviolável do século XIX”. Na
cidade de Salvador, no Brasil, em 1836, a população não gostou muito dessa
ideia. Entraria em vigor, ali, uma lei que proibia que fossem realizados
enterros dentro ou ao lado das igrejas. Estes deveriam ser feitos no “Campo
Santo”, nome dado ao cemitério construído por uma empresa privada, que teria o monopólio
dos enterros por 30 anos. Munidos de alavancas, machados e ferros, populares destruíram
o cemitério. O episódio ficou conhecido como “Cemiterada”. Não
por acaso, portanto, a pergunta de Kardec enfoca, especificamente, os
monumentos fúnebres. Entretanto, o túmulo, no espetáculo de exibição pública de
status, poder e riqueza, seria a “cereja do bolo”, a última demonstração, a
culminância do orgulho. Allan Kardec desdobra a questão 823.
a) – Mas a
suntuosidade dos monumentos fúnebres não é antes devida, as mais das vezes, aos
parentes do defunto, que lhe querem honrar a memória, do que ao próprio
defunto?
“Orgulho dos parentes, desejosos de se
glorificarem a si mesmos. Oh, sim, nem sempre é pelo morto que se fazem
todas essas demonstrações. Elas são
feitas por amor-próprio e para o mundo, bem como por ostentação de riqueza.
Supões, porventura, que a lembrança de um ser querido dure menos no coração de
um pobre, que não lhe pode colocar sobre o túmulo senão uma singela flor? Supões que o mármore salva do esquecimento
aquele que na Terra foi inútil?”
Os parentes de personalidades famosas –
pelo dinheiro, pelo poder ou pelos dois – aproveitam-se da fama do sujeito para
“tirar uma casquinha” da notoriedade do familiar. Provavelmente, exibiam-se
como os responsáveis pela arte que decorava as sepulturas e pelo cultivo da memória
do desencarnado, que lhe poderia trazer algum benefício como, por exemplo, se
se tratasse de um escritor famoso ou músico conhecido, cuja produção cultural
(livros, músicas) continuaria sendo consumida pelos contemporâneos, se não
rendendo frutos financeiros, ao menos status. Além disso, a exuberância
apresentada nos túmulos revelaria que o desencarnado, em vida, foi rico, e que
seus familiares que lhe providenciaram a última morada do corpo ainda o são. As
duas últimas frases da resposta dos Espíritos a Allan Kardec são preciosas. O
local mais adequado para guardar-se a lembrança de alguém não é feito de
mármore, bronze ou, mesmo, de ouro. É o coração humano, templo interior que
representa a sentimentalidade e o afeto que nutrimos por alguém. Aí sim, a
memória é imorredoura, porque baseada naquilo que a traça não rói e o tempo não
consome: o amor verdadeiro. O mármore e os metais podem durar muito tempo
mesmo. A intenção de quem escolhe esses materiais é essa mesmo. Entretanto, são
feitos do elemento material. O tempo os consumirá. E, além disso, mármore e
bronze não impedirão, como dizem os Espíritos, de fazer com que alguém que
tenha sido inútil seja esquecido.
Agora, façam o esforço de imaginar a
situação daquele que ritualiza a sua morte até a culminância de mandar
construir sua própria sepultura. Depreende-se, daí, que o sujeito parte de uma
concepção de morte que a entende como o ato final de sua passagem pela vida,
vindo, após isso, o nada, daí a necessidade de lutar contra o esquecimento para
viver na memória dos outros. Também pode entendê-la como o momento de espera do
juízo final, permanecendo, em última análise, ainda junto de elementos que lhe
atestem a sua grandeza material e seu poder, na imagem da suntuosidade dos seus
túmulos. Imaginem a situação do
Espírito. Quantos, nessas circunstâncias, ficam presos aos locais de
sepultamento de seus corpos? Allan Kardec, em “O Céu e o Inferno”, num capítulo
intitulado “O passamento” lembra-nos que
a causa
principal da maior ou menor facilidade de desprendimento é o estado moral da
alma. A afinidade entre o corpo e o períspirito é proporcional ao apego à
matéria, que atinge o seu máximo no homem cujas preocupações dizem respeito
exclusiva e unicamente à vida e gozos materiais.
Ficará preso ao local de sepultamento
de seu corpo material porque, em realidade, é apegado ao seu corpo. A
preocupação em construir um monumento de culto a ele é sintoma de apego à
matéria, de ligação muito forte com a vida física. Seu corpo morrerá, mas ele
não vai desencarnar. Além disso, há que se levar em conta a perturbação do
Espírito que se segue ao fenômeno biológico da morte do corpo. No mesmo
capítulo, Kardec nos traz algumas informações valiosas a respeito. Segundo ele,
no instante da morte, a alma experimenta uma espécie de torpor que lhe paralisa
momentaneamente as faculdades.
A perturbação
pode, pois, ser considerada o estado normal no instante da morte e perdurar por
tempo indeterminado, variando de algumas horas a alguns anos. À proporção que
se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável à de um homem que
desperta de profundo sono; as ideias são confusas, vagas, incertas; a vista
apenas distingue como que através de um nevoeiro, mas pouco a pouco se aclara,
desperta-se-lhe a memória e o conhecimento de si mesma. Bem diverso é, contudo,
esse despertar; calmo, para uns, acorda-lhes sensações deliciosas; tétrico,
aterrador e ansioso, para outros, é qual horrendo pesadelo.
A crise da morte, portanto, que é
normal, varia de acordo com o grau de apego que o desencarnado possuía à sua
vida física. Quanto menos ligado aos valores materiais da vida, mais rápido a
sua tomada de consciência no mundo espiritual.
Os
funerais, onde se reúne variado número de pessoas para o sepultamento do corpo
material da pessoa que desencarna, podem se constituir em verdadeiros
obstáculos à tranquilidade daquele que deixa a vida física. Os encarnados
presentes, se não mantém postura adequada, de respeito e orações àquele por
quem estão velando o corpo, podem afetar-lhe, negativamente, a tomada de
consciência. No livro “Conduta Espírita”, psicografado pelo médium Waldo
Vieira, André Luiz nos sugere que devemos calar “anedotário e galhofa em torno da pessoa desencarnada, tanto quanto
cochichos impróprios ao pé do corpo inerte”. Isso,
infelizmente, é muito comum, e o próprio André Luiz, em outro livro seu,
“Obreiros da Vida Eterna”, informa-nos sobre as consequências dessa atitude inadequada
para o desencarnado. Acompanhando o velório do médium Dimas, fica sabendo que,
o processo de desligamento do seu corpo físico já estava quase completo, mas
era afetado pelos encarnados ali presentes. A mãe do médium, também
desencarnada, que o amparava neste momento de transição, informa-nos que seu filho era chamado ao cadáver “cada vez que os parentes se debruçam, em
pranto, sobre os despojos”,
o que prejudicava a velocidade do restabelecimento de suas faculdades. Para
aliviá-lo, ela o induzia ao sono, mas os pensamentos dos presentes faziam com
que seu sono fosse povoado de pesadelos. De que maneira?
As imagens
contidas nas evocações das palestras incidem sobre a mente do desencarnado,
mantido em repouso depois de rápido mergulho na contemplação dos fatos alusivos
à existência finda. Não somente as imagens. Por vezes, nossos amigos presentes,
fecundos nas conversações sem proveito, exumem, com tamanho calor, a lembrança
de certos fatos, que trazem até aqui alguns dos protagonistas já desencarnados.
Ou seja, além dos pensamentos afetarem
o equilíbrio daquele que desencarna, ainda tem o perigo dos presentes atraírem,
para o velório, outros Espíritos, nem sempre equilibrados, afetando, ainda
mais, de maneira negativa, o processo de desligamento do corpo físico. E André
Luiz presenciou a ocorrência na sala onde ocorria o velório. Um dos presentes
disse que Dimas presenciou um crime cometido por um chefe político da região
interiorana onde morava. Descendo aos detalhes que levaram o político a
assassinar um homem, informa que Dimas socorreu a vítima, mas não denunciou o agressor. Por
caridade ou por medo, podemos supor. Assim que terminou sua narrativa, eis que
o antigo assassino, já desencarnado e em profundo desequilíbrio, entra no
ambiente e aproxima-se do narrador, questionando-lhe: “Sou eu o assassino! Que quer você de mim? Por que me chama? É juiz?!”
Percebendo o cheiro de flores, o antigo assassino notou que estava em um
velório e foi ver de quem se tratava. Ao reconhece-lo, chama por Dimas: “Socorre-me! Estou desesperado! Onde
encontrarei minha vítima para suplicar-lhe o perdão de que necessito? Ajuda-me,
ainda! Tem compaixão! Deves saber o que ignoro! Socorre-me, socorre-me!...”
Um dos Espíritos que lhe ajudavam no processo de desencarnação informa, então,
à André Luiz que Dimas registrou a presença na forma de terrível pesadelo,
recordando-se do fato relatado. Agora, vocês imaginem se a pessoa foi famosa,
se teve poder, destaque social ou riqueza e desencarna. Sabemos todos que os
sepultamentos dessas pessoas são muito procurados, às vezes por centenas de
pessoas. Imaginem que boa parte delas cultiva essa confusão de pensamentos e
tem, frente ao desencarnado famoso, atitudes muito parecidas com a que nos
referimos, rememorando passagens nem sempre felizes daquelas pessoas, o que
deve constituir-se em verdadeira tortura para o Espírito desencarnado.
Os Espíritos Superiores informam a Allan Kardec, nas questões 326 e 327,
da segunda parte de “O Livro dos Espíritos”, que as honras e homenagens prestadas
ao corpo físico que será sepultado não chamam muito a atenção daqueles
desencarnados já livres das vaidades terrenas, mas alguns, que ainda conservam
alguns prejuízos deste mundo, sentem grande satisfação com essas homenagens ou
se aborrecem com o pouco caso que se lhes façam. Informa-nos, ainda, que muitos
Espíritos assistem aos seus funerais, apesar de alguns deles, dada essa
perturbação de que falamos, não perceberem, muito bem, o que se passa.
Na questão 824 Kardec indaga: “Reprovais então, de modo absoluto, a pompa
dos funerais?”
Ao que os Espíritos respondem: “Não;
quando se tenha em vista honrar a memória de um homem de bem, é justo e de bom
exemplo”.
O famoso escritor francês Victor Hugo desencarnou em 22 de Maio de 1885. Nas
suas últimas vontades, constava seu desejo de doar 50 mil francos para os
pobres e o de ter o seu corpo levado para o cemitério no carro funerário dos
pobres. “É
preciso que alguém seja a favor dos vencidos”,
escreveu em sua obra “Os Miseráveis”. E ele o foi. Defendeu a abolição da pena
de morte, os direitos da classe trabalhadora e a mulher. Por nove dias, uma
multidão de franceses velou seu corpo. Dois milhões de pessoas acompanharam o
cortejo fúnebre até o Panthéon, monumento aos heróis nacionais da França. Para
cultivar a memória de homens como Victor Hugo, os Espíritos Superiores que
respondem a Kardec concordam com o destaque emprestado ao funeral.
Allan Kardec comenta que “o túmulo é o ponto de reunião de todos os
homens. Aí terminam inelutavelmente todas as distinções humanas”. Todos,
pobres ou ricos, têm que deixar o corpo físico por ocasião da morte. O rico
pode viver maior número de anos, por se alimentar melhor e por dispor de
melhores hospitais, facilidades que a riqueza lhe oferece. Mas seu corpo não é
eterno. O que fará com que as pessoas lembrem-se da nossa passagem no mundo é o
tipo de conduta que tivermos durante nossa existência física. Seremos lembrados
pelas nossas ações, boas ou ruins. Os funerais mais fantásticos, mais luxuosos
e requintados não farão com que criaturas que levaram uma vida egoísta sejam
lembradas. Que tipo de impressões estamos deixando nas pessoas? Estamos
cultivando simpatias através da prática do bem? “É dando que se recebe”, já
dizia a oração atribuída a Francisco de Assis. O que temos dado de nós para a
vida? Quais as sementes que estamos dispersando pelos caminhos do mundo?
Refletir sobre a morte é pensar sobre a vida que levamos. Os nossos tem sido os
caminhos do Senhor? Onde está o nosso tesouro? Allan Kardec informa-nos que
para trabalharmos pela nossa purificação, devemos reprimir nossas más
tendências e dominar nossas paixões. Para tanto, devemos abrir mão “das vantagens imediatas em prol do futuro,
visto como, para identificar-se com a vida espiritual, encaminhando para ela
todas as aspirações e preferindo-a à vida terrena, não basta crer, mas
compreender”.
Para o espírita, a vida futura é uma realidade que se desenrola, a todo o
momento, diante de seus olhos, uma vez que os Espíritos, as almas dos homens
que já deixaram o corpo, vêm nos informar da imortalidade e as consequências de
nossas ações.