terça-feira, 28 de março de 2017

Programação das Reuniões Públicas de Palestras e Passes das Terças-feiras

PROGRAMAÇÃO PARA PALESTRAS DE TERÇAS-FEIRAS 20 HORAS
MÊS: ABRIL 2017
DIA
TEMA
EXPOSITOR
4/4
“Ressureição e reencarnação”, O Evangelho S. Espiritismo, cap. IV, itens 1 a 17.
Sebastião Roberto Ribeiro
11/4
“Igualdade dos direitos do homem e da mulher”, O Livro dos Espíritos, perguntas 817 a 822.
H. Torres 
18/4
“A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe”, O Evangelho S. Espiritismo, cap. IV, itens 18 a 23.
Paulo Webber Gil
25/4
“Igualdade perante o túmulo”, O Livro dos Espíritos, perguntas 823 e 824.
Marco Aurélio
Gomes de Oliveira

As provas de riqueza e de miséria

Palestra apresentada no Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor em 28 de Março de 2017.

(O Livro dos Espíritos, perguntas 814 a 816)
Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel de Barros, “O Bicho”.


No dia 16 de Abril de 1994, o Jornal Folha de São Paulo, a partir de denúncia feita pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, publicou uma reportagem muito triste. Próximo a uma favela de Olinda, havia um lixão onde eram descartados, dentre outras coisas, lixo hospitalar. Uma catadora chamada Leonildes, então com 65 anos afirmou que assou no óleo e comeu com cuscuz um seio humano encontrado pelo seu filho Adilson, então com 39 anos, em meio aos detritos. “Não tinha o que comer e comi isso mesmo”[1]. Comeram porque passavam fome. “Com fome entra tudo. Passei um bocado de dia sem saber o que era almoço”[2]. A pastora Simea Meldrum acreditava, a partir de suas conversas com catadores, que a prática fosse comum entre eles, ainda que todos se resguardassem em admitir. Enquanto a reportagem do jornal se encontrava aí, flagraram um caminhão de lixo despejando sua carga, que era vasculhada por crianças. Uma menina, chamada Ivanilda, então com 11 anos, encontrou um pedaço de pão e o comeu. A mãe dela, chamada Solange, achou a atitude normal. “A gente come o que acha aí. Pega peixe, roupa, galinha, o que tiver (...) A gente tem que viver, né?”[3] O educador Paulo Freire, visitando o local e refletindo à respeito da situação que encontrara, diz que na favela “cedo se aprende que só a custo de muita teimosia se consegue tecer a vida com sua quase ausência – ou negação –, com carência, com ameaça, com desespero, com ofensa e dor”[4]. Os fatos a que me referi ocorreram a mais de vinte anos, mas a fome e a miséria não deixaram de ser realidades muito presentes no mundo em que vivemos e, mesmo, no cotidiano de nossa cidade que se pretende maravilhosa.

O conhecido médico brasileiro Dráuzio Varella publicou, em 18 de Março deste ano, também na Folha de São Paulo, um artigo onde afirma que viver na pobreza coloca em risco o desenvolvimento do cérebro das crianças. De acordo com o grupo de pesquisa da professora Kimberly Noble, da Universidade de Columbia, trabalhando neste campo há quinze anos, “as crianças das famílias mais pobres levaram desvantagem nos testes de linguagem e memória e nas capacidades de autocontrole e concentração”[5]. Ainda segundo ele, o estudo da professora coincide com o de outros grupos que notaram “alterações anatômicas em áreas do cérebro envolvidas na cognição, entre as quais uma diminuição de volume do hipocampo, estrutura essencial para a formação das memórias”[6]. Dráuzio Varella afirma que o cérebro é o órgão que mais consome energia no corpo físico. A maior parte das calorias ingeridas pelas crianças é gasta por ele. As diarreias e infecções parasitárias da infância interferem no equilíbrio energético do seu corpo, “uma vez que prejudicam a absorção de nutrientes e obrigam o organismo a investir energia na reparação dos tecidos lesados e na mobilização do sistema imunológico, para localizar e atacar os germes invasores”[7]. Aos três anos, o cérebro da criança já atingiu 80% do tamanho do de um adulto. Dos dezoito meses aos quatro anos de vida, as partes do cérebro infantil que estão amadurecendo em velocidade máxima, podem ressentir-se da falta de nutrientes para seu pleno desenvolvimento. O desenvolvimento infantil também sofre abalos por ambientes domésticos conturbados. Ou seja: alimentando-se mal e vivendo num ambiente de negação da dignidade humana, as crianças pobres terão seu desenvolvimento cognitivo prejudicado.

Agora some-se à isso a realidade cotidiana de ter que despertar antes do galo cantar para trabalhar. A de ter que enfrentar o transporte público de péssima qualidade lotado, onde o trabalhador perde, pelo menos, a depender de onde more, algo em torno de uma hora e meia por dia indo e voltando. Somadas às oito horas de trabalho, são onze horas fora de casa para receber, na maioria das vezes, um salário mínimo de R$: 937,00 quando o DIEESE calculou o salário mínimo necessário para o trabalhador em R$: 3.658,72[8]. Quem recebe salário mínimo não pode colocar o filho em escola particular e nem contratar plano de saúde para a própria família. Depende, assim, da estrutural e intencional má qualidade dos serviços públicos. E estamos falando daqueles que tem um emprego. Imagine quem não tem! Não por acaso, quando analisamos o perfil socioeconômico da população carcerária do país – a quarta do mundo! – verificamos que 55% têm entre 18 e 29 anos; 61,6% são negros e 75,08 têm até o ensino fundamental incompleto[9]. Já deu pra ver que não são ricos, né?

No outro extremo temos aqueles muito ricos. A ONG britânica Oxfam divulgou, em Janeiro de 2017, que OITO PESSOAS NO PLANETA possuem tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial[10]. Quanto seria essa metade mundial? 3,6 bilhões de seres humanos[11]. Como enriquecem desse jeito? Como essa desigualdade social existe? Sonegando impostos e reduzindo salários de seus funcionários para aumentar os rendimentos dos acionistas de suas empresas. Encabeçando a lista temos Bill Gates, fundador da Microsoft, que é detentor de uma fortuna de US$: 75 bilhões ou, aproximadamente, R$: 233 bilhões[12]. Nos EUA, a renda dos 50% mais pobres foi congelada nos últimos 30 anos, enquanto que a do 1% mais rico aumentou 300%![13] No Vietnã, o homem mais rico do país ganha, em um dia, mais do que a pessoa mais pobre em 10 anos! Em 2015, as 10 maiores empresas do mundo obtiveram faturamento superior à receita total dos Governos de 180 países. Essas empresas usam seu poder financeiro para garantir que a legislação e a política, nacionais e internacionais, sejam feitas sob medida para proteger seus interesses e aumentar seus lucros. As isenções fiscais, que quebraram o Governo do Estado do Rio de Janeiro, são bons exemplos[14].



O historiador Eric Hobsbawm no seu livro “A Era dos Impérios”, que trata dos últimos 20 anos do século XIX até a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, diz que mansões e casas de campos “eram destinadas a demonstrar os recursos e o prestígio de um membro da elite dirigente aos outros membros e às classes inferiores, bem como a organizar o jogo de influências e domínio”[15]. Ou seja, serviam para demonstrar status e poder para seus pares. Podemos lembrar, também, de Andrew Carnegie, que nasceu pobre, filho de tecelão, que ficou milionário e chegou a doar US$: 350 milhões, sem que isso afetasse seu estilo de vida. Essas doações suavizavam, retrospectivamente, perante o público, “os contornos desses homens recordados por seus operários e rivais de negócios como ferozes predadores”[16].

Segundo um estudo da Organização das Nações Unidas – ONU – de 2015, para erradicarmos a fome de maneira sustentável do mundo até o ano de 2030 seriam necessários US$: 267 bilhões por ano para investimentos em áreas rurais e urbanas e em proteção social. Isso representaria US$: 160,00 por ano por pessoa vivendo em extrema pobreza, por um período de 15 anos[17].  Estamos em Março de 2017 e, neste momento, o mundo encontra-se em sua pior crise humanitária em 70 anos. Até Julho deste ano, mais de 20 milhões de pessoas correm sério risco de morrer de fome em países da África e do Oriente Médio por causa da guerra e da seca[18]. De acordo com o diretor de assuntos humanitários da ONU, seria necessário um aporte imediato de US$: 4,4 bilhões para enfrentar o problema.

Parece muito dinheiro, não é? Sem dúvida alguma que sim, não é pouco. No entanto, comparando-se com as despesas militares dos países que mais gastam com armas no mundo, percebemos que o compromisso dos governantes mundiais tem sido com a morte, ao invés da vida. O orçamento de defesa dos EUA em 2016 foi de US$: 581 bilhões; A Rússia gastou US$: 47 bilhões; A China US$: 156 bilhões; A Índia US$: 40 bilhões; A França US$: 35 bilhões; O Reino Unido US$: 55 bilhões; O Japão US$: 40 bilhões; A Turquia US$: 18 bilhões e, por fim, a Alemanha gastou US$: 36 bilhões. Quanto gastou o Brasil? US$: 32 bilhões[19]. Somando-se as despesas militares destes onze países, temos US$: 1.040 trilhão (um trilhão e quarenta bilhões de dólares). Em 4 anos, dava para acabar com a fome no mundo.



Allan Kardec, na questão 814 de “O Livro dos Espíritos” indaga às Entidades Superiores:

Por que Deus a uns concedeu as riquezas e o poder, e a outros, a miséria?
Para experimentá-los de modos diferentes. Além disso, como sabeis, essas provas foram escolhidas pelos próprios Espíritos, que nelas, entretanto, sucumbem com frequência.” [20]

Somos Espíritos encarnados vivendo experiências específicas para o nosso crescimento moral e intelectual. O momento e situação em que nos encontramos no presente faculta-nos retirar, daí, lições preciosas para nosso desenvolvimento. Através das experiências nas diferentes classes sociais, encontramos material para crescermos espiritualmente porque as situações de pobreza e riqueza colocam-nos situações únicas das quais temos que nos sair bem. A vida dos catadores Leonildes e Adilson, na favela de Olinda (é possível que já estejam desencarnados), retirando do lixo o sustento de suas vidas, o alimento para o corpo, é diferente da de Bill Gates ou da de Andrew Carnegie. A expectativa de vida dos mais pobres é menor. As oportunidades de acesso à cultura são menores, mais limitadas. A manteiga que, eventualmente, conseguiam passar num pão, para eles não era o essencial. O que matava a fome era o pão. Ou os restos humanos que encontravam. O tratamento dispensado à pessoas com melhor condição financeira, onde elas se encontrem – nem precisa ser um milionário – é totalmente diferente daquele dispensado aos mais pobres. O rico, ou de classe média alta, costuma ser paparicado aonde chega. O pobre é visto como potencial suspeito de cometer roubo ou visto como um preguiçoso vagabundo.

Os Espíritos que estão em condições de exercerem seu livre-arbítrio, elegem o gênero de provas que terão pela frente ao longo de suas vidas. Há Espíritos, no entanto, que são pouco maduros ou que retornam ao Mundo Espiritual em más condições de equilíbrio. Nestes casos, Espíritos Superiores organizam, para eles, suas novas encarnações. O fato de eleger o gênero de provas não quer dizer que as menores coisas já estão programadas para acontecer-nos. Dizem-nos os Espíritos que “as particularidades correm por conta da posição em que vos achais; são, muitas vezes, consequências das nossas ações”[21]. O Espírito sabe que “escolhendo tal caminho, terá que sustentar lutas de determinada espécie; sabe, portanto, de que natureza serão as vicissitudes que se lhe depararão, mas ignora se se verificará este ou aquele êxito”[22].

 Na segunda parte de “O Livro dos Espíritos”, em seu sexto capítulo – Da vida espírita – encontramos um subtema chamado “Escolha das provas”. Allan Kardec assim pergunta aos Espíritos Superiores:

264. Que é o que dirige o Espírito na escolha das provas que queira sofrer?
“Ele escolhe, de acordo com a natureza de suas faltas, as que o levem à expiação destas e a progredir mais depressa. Uns, portanto, impõem a si mesmos uma vida de misérias e privações, objetivando suportá-las com coragem; outros preferem experimentar as tentações da riqueza e do poder, muito mais perigosas, pelos abusos e má aplicação a que podem dar lugar, pelas paixões inferiores que uma e outros desenvolvem; muitos, finalmente, se decidem a experimentar suas forças nas lutas que terão de sustentar em contato com o vício.” [23]

Dessa forma, o Espírito que tem condições de avaliar sua situação com algum grau de equilíbrio no Mundo Espiritual leva em consideração, na escolha de suas provas, os erros cometidos, bem como aquilo que ele considera que pode ajuda-lo a evoluir mais depressa. Através da pobreza ou da miséria, pela coragem que pode desenvolver para encarar as situações limitadoras que ela coloca. Em sendo pobre, não pode dar-se ao luxo de gastar descontroladamente porque, do contrário, corre o risco de faltar-lhe recursos para a manutenção da própria vida, bem como a de seus familiares. Tem que desenvolver hábitos mais controlados, aprender a “enxugar suas necessidades”, avaliando o grau de importância de cada uma delas. Com isso, educa-se ou reeduca-se – se foi, no passado de outras encarnações alguém que dissipou seus bens de maneira irresponsável – para a utilização dos recursos que a Providência Divina coloca-lhe nas mãos, uma vez que vivemos num mundo que vem sendo dilapidado pela nossa voracidade em criar necessidades fictícias e facilidades perturbadoras do futuro humano (vide nossa produção de resíduos). Por outro lado, aquele que tem a chance de utilizar-se da riqueza material, tem diante de si uma prova difícil, uma vez que pode comprometer-se a si mesmo, bem como a um conjunto de pessoas maior, de acordo com o tamanho de suas possibilidades materiais. Notem que os Espíritos Superiores ligaram a questão da riqueza à do poder. Não por acaso, como já pudemos notar, o dinheiro é usado pelas grandes corporações, pelas grandes empresas, para fazer com que políticos criem leis e governem de acordo com seus interesses de classe. Vide o recente escândalo da Lava Jato, onde partidos políticos recebem vultosos recursos materiais de grandes construtoras, quase sempre dinheiro não declarado à Receita Federal, para as campanhas eleitorais. Tão logo os políticos que patrocinaram fossem eleitos, esperavam a “contrapartida” em obras públicas bem caras, muitas das quais se tornaram verdadeiros elefantes brancos como as da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas do Rio de Janeiro (2016). Além disso, aquele que dispõe de riqueza tem mais coisas a desapegar-se quando está para desencarnar. Viveu toda uma vida de sensações, de luxo material, de diferentes tipos de prazeres materiais. Gozou do conforto do seu jatinho, do seu iate, dos empregados que dispunha, de suas mansões e de seus carros. Não pode levar nada disso quando desencarna. E isso para eles é tão doloroso que, muitos deles, no passado, enterravam-se cercado de bens materiais e, também, até de seus empregados e familiares, que eram mortos e postos em suas sepulturas[24].

Na questão 815, quando Allan Kardec indaga se a desgraça ou a riqueza seriam as provas mais terríveis, os Espíritos recordam-nos que “a miséria provoca as queixas contra a Providência”.[25] As experiências dolorosas daqueles que vivem as privações materiais dão-lhe a sensação falsa de estarem abandonado por Deus, de que ninguém se importa com eles. No entanto, Deus vela por todos nós, sem exceção. Ao nosso lado, sustentando-nos o equilíbrio, Espíritos que torcem por nós amparam-nos as necessidades emocionais e, sim, muitas vezes materiais. Quantos de nós, que em algum momento de nossas vidas, vivendo dificuldades financeiras, fomos “salvos” pela ajuda de alguém ou de uma situação que não esperávamos? Allan Kardec, em seu tempo, foi escritor famoso. Sua gramática foi utilizada na França por largos anos. Entretanto, não tinha situação material remediada. Trabalhou bastante para sustentar-se. Num livro que foi publicado após sua desencarnação chamado “Obras Póstumas”, encontramos um diálogo dele com o Espírito de Verdade, que orientava sua tarefa de divulgação do Espiritismo.

P. — Disseste que serás para mim um guia, que me ajudará e protegerá. Compreendo essa proteção e o seu objetivo, dentro de certa ordem de coisas; mas, poderias dizer-me se essa proteção também alcança as coisas materiais da vida?
R. — Nesse mundo, a vida material é muito de ter-se em conta; não te ajudar a viver seria não te amar.[26]

         Assim, os Espíritos Superiores não descuidam de nós no capítulo da vida material. Certamente, não receberemos o supérfluo, mas o necessário para vivermos não nos faltará. Velaram por Kardec, velam por nós. Pessoas há, no entanto, que, neste momento, como vimos, estão passando fome. Não foram esquecidos por Deus. Com o sofrimento que experimentam, resgatam suas culpas do passado, uma vez que “o fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem”[27]. Resignação aqui significando a aceitação daquilo que não pode ser modificado por aquele que sofre. Em “O Evangelho S. Espiritismo” lemos que

Os sofrimentos devidos a causas anteriores à existência presente, como os que se originam de culpas atuais, são muitas vezes a consequência da falta cometida, isto é, o homem, pela ação de uma rigorosa justiça distributiva, sofre o que fez sofrer aos outros. [28]

Ou seja, recebemos, de volta, para aprendermos, aquilo que fizemos os outros sofrerem. Não se quer dizer com isso que a exploração do homem pelo homem e a consequente miséria daí decorrente – lembrem-se que a desigualdade das condições sociais é obra do homem e não de Deus, conforme a resposta à questão 806 de “O Livro dos Espíritos” – é necessária para que os que sofrem resgatem suas culpas. Pelo contrário. Aqueles que tem possibilidades materiais poderiam, se não estivessem, em sua maioria, preocupados em aumentar mais suas riquezas, trabalhar em benefício das coletividades. Já seria excelente se não explorassem seus subordinados. Não por acaso, na questão 816 Kardec indaga:

Estando o rico sujeito a maiores tentações, também não dispõe, por outro lado, de mais meios de fazer o bem?
“Mas, é justamente o que nem sempre faz. Torna-se egoísta, orgulhoso e insaciável. Com a riqueza, suas necessidades aumentam e ele nunca julga possuir o bastante para si unicamente.” [29] 

         Podem fazer o bem, mas “sentam-se” em cima do talento, preservando-o apenas para si, sem compartirem-no com seus semelhantes. Onde pretendem chegar com tamanho egoísmo? Nesse galope, só alcançarão o Mundo Espiritual em condição de muito sofrimento. Tem a ilusão de deter o próprio destino em suas mãos. Fazem-nos lembrar do rico insensato da parábola de Jesus. Estando em meio à multidão, um homem pediu a Jesus que dissesse ao irmão dele que repartisse a herança com ele. Depois de questionar quem o teria encarregado de julgar ou dividir os bens dos homens, o Nazareno, voltando-se para o povo disse:

Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens. E contou-lhes uma parábola: A terra de um homem rico deu uma grande colheita. E o homem pensou: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita.’ Então resolveu: ‘Já sei o que vou fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir outros maiores; e neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, você possui um bom estoque, uma reserva para muitos anos; descanse, coma e beba, alegre-se!’ Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Nesta mesma noite você vai ter que devolver a sua vida. E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?’ Assim, acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico para Deus. [30]

         Para encerrar, recordamo-nos de uma mensagem de “O Evangelho S. Espiritismo” assinada por “Um Espírito protetor”, que está no capítulo “Não se pode servir a Deus e a Mamon”. O autor espiritual diz que se impressiona com a preocupação incessante que muita gente coloca no atendimento do bem estar material, ao passo que pouca importância liga ao aperfeiçoamento moral. Afirma que muita gente escraviza-se a trabalhos penosos “pelo amor imoderado da riqueza e dos gozos que ela proporciona”[31], gabando-se por viver uma vida de sacrifícios e mérito “como se trabalhassem para os outros e não para si mesmas!”[32]Diz, ainda, que eles pensaram, apenas, em seus corpos. “Por ele, que morre”, desprezastes o vosso Espírito, que viverá sempre” [33]. Esquecemo-nos que somos Espíritos vivendo experiências materiais num corpo físico. Confundimo-nos com nossos corpos, que são vestes transitórias. A certeza da vida futura modifica-nos a maneira de encarar a vida e o “combo” de situações desafiadoras que ela nos coloca. Que possamos encarar, então, as provas que elegemos – de riqueza ou de pobreza – como oportunidades para nosso crescimento espiritual dentro de uma experiência temporária no corpo físico realizando a maior soma de bem que pudermos e procurando educar-nos, a fim de deixarmos para trás os velhos hábitos que nos prendem ao círculo de reencarnações inferiores.



[1] “Indigentes comem carne humana em Olinda”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/4/16/brasil/53.html Último acesso em 27 de Março de 2017.
[2] “‘Comi porque tinha fome’”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/4/16/brasil/54.html Último acesso em 27 de Março de 2017.
[3] “Indigentes comem carne humana em Olinda”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/4/16/brasil/53.html Último acesso em 27 de Março de 2017.   
[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996, p. 74.
[5] VARELLA, Dráuzio. “A pobreza e o cérebro das crianças”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2017/03/1867417-a-pobreza-e-o-cerebro-das-criancas.shtml#_=_ Último acesso em 27 de Março de 2017.
[6] Idem.
[7] Idem.
[8] “Pesquisa nacional da cesta básica de alimentos”. Disponível em: http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html Último acesso em 27 de Março de 2017.
[9] “População carcerária brasileira chega a mais de 622 mil detentos”. Disponível em: http://www.justica.gov.br/noticias/populacao-carceraria-brasileira-chega-a-mais-de-622-mil-detentos Último acesso em 27 de Março de 2017.
[10] “Oito pessoas concentram mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial, diz ONG britânica”. Disponível em:  http://g1.globo.com/economia/noticia/oxfam-critica-concentracao-indecente-de-riqueza-no-mundo.ghtml Último acesso em 27 de Março de 2017.
[11] “Oito homens possuem a mesma riqueza que a metade mais pobre da humanidade”. Disponível em:  http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/13/economia/1484311487_191821.html Último acesso em 27 de Março de 2017.
[12] Dólar custando R$:3,11 em 24 de Março de 2017 as 12h49. “Câmbio”. Disponível em: https://economia.uol.com.br/cotacoes/cambio/dolar-comercial-estados-unidos/ Último acesso em 27 de Março de 2017.
[13] “Oito homens possuem a mesma riqueza que a metade mais pobre da humanidade”. Disponível em:  http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/13/economia/1484311487_191821.html Último acesso em 27 de Março de 2017.  
[14] “Isenções fiscais do governo do Rio para empresas somam R$ 138 bi, diz relatório do TCE”. Disponível em:  http://blogs.oglobo.globo.com/na-base-dos-dados/post/isencoes-fiscais-do-governo-do-rio-para-empresas-somam-r-138-bi-diz-relatorio-do-tce.html Último acesso em 27 de Março de 2017.
[15] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. São Paulo: Paz e Terra, 2015, p. 260.
[16]Idem, p. 291.
[17]ONU: US$ 267 bilhões por ano adicionais para acabar com a fome até 2030”. Disponível em: http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/2015/07/onu-us-267-bilhoes-por-ano-adicionais-para-acabar-com-a-fome-ate-2030/#.WNm_7G_yvcc Último acesso em 27 de Março de 2017.
[18] Os países são: Iêmem, Sudão do Sul, Somália e Nigéria. “Por que o mundo vive sua pior crise de fome em 70 anos”. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/03/13/Por-que-o-mundo-vive-sua-pior-crise-de-fome-em-70-anos Último acesso em 27 de Março de 2017.
[19] “Estas são as maiores potências militares do mundo em 2016”. Disponível em: http://exame.abril.com.br/mundo/estas-sao-as-maiores-potencias-militares-do-mundo-em-2016/ Último acesso em 27 de Março de 2017.
[20] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 379. Grifos meus.
[21] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 171.
[22] Idem, p. 172.
[23] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 174.
[24] O filme “Confúcio, a batalha pelo império” ilustra bem isso.
[25] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 379.
[26] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 276.
[27] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2004, p. 123.
[28] Idem, p. 115.
[29] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 379. Grifos meus.
[30] BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. São Paulo: Edições Paulinas, 1990, p. 1331. Lucas, 12: 14-21. Bíblia.
[31] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. op. cit., p. 311.
[32] Idem.
[33] Idem.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Visão Espírita do Carnaval

Palestra apresentada no Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor em 21 de Fevereiro de 2017.


         Em 1994, a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira levou, à Sapucaí, um enredo sobre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Na voz do saudoso cantor Jamelão, o samba-enredo começava assim: “Me leva que eu vou/ Sonho meu/ Atrás da verde e rosa/ Só não vai quem já morreu...” [1]. Por que só não vai quem já morreu? O que impede aqueles que desencarnaram de irem atrás da verde e rosa ou de qualquer outra escola de samba? Por que não poderiam ir “pular o Carnaval” nos blocos, nas festas de rua ou nos clubes e salões? Porque não possuem, mais, um corpo físico? Ora, isso não é problema. Não foi Jesus quem disse que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”? (Mt 6.21). Vale pra isso também. Allan Kardec, em “O Livro dos Espíritos”, estudando as recordações das existências corpóreas, diz que aos Espíritos vulgares (comuns, que não se destacam), são os que mais sentem satisfação em estarem no planeta Terra, entre os encarnados. Segundo ele, esses Espíritos

Conservam quase que as mesmas ideias, os mesmos gostos e as mesmas inclinações que tinham quando revestidos do invólucro corpóreo. Metem-se em nossas reuniões, negócios, divertimentos, nos quais tomam parte mais ou menos ativa, segundo os caracteres. Não podendo satisfazer às suas paixões, gozam na companhia dos que a elas se entregam e os excitam a cultivá-las. [2]

         Percebemos, então, que a morte não transforma a maneira de ser e de pensar de ninguém. Despertamos, no Mundo Espiritual, conforme vivemos aqui, com os mesmos gostos, as mesmas tendências e inclinações, as mesmas virtudes e defeitos. Seremos lá o que somos aqui. Dessa forma, aqueles de nós que, muito ligados, mental e emocionalmente, à vida material, aos seus prazeres e gozos, permaneceremos vinculados a ela, sem um corpo físico, intrometendo-nos nas atividades com as quais nos identificamos. Todos de nós que mantivermos, enquanto encarnados, nosso gosto pelas bebidas alcoólicas, pelo cigarro de tabaco ou de maconha, pela cocaína ou pelo crack, por calmantes ou estimulantes – também drogas – prescritos por médicos, sentiremos, quando desencarnados, necessidade dessas substâncias. Mas a dependência ou o vício não são, apenas, de natureza química. Se, enquanto encarnados, formos viciados em sexo, fofoqueiros, rancorosos, levaremos esses defeitos para o Mundo Espiritual. Em razão disso, porque muito ligados, ainda, à vida física, buscaremos a companhia dos encarnados que se entregam a todas essas práticas e, provavelmente, por ligação mental, vamos estimulá-los a que se entreguem, ainda mais, a realizarem aquilo que gostamos. Assim, aqueles Espíritos que, enquanto encarnados, gostavam do Carnaval e tudo relacionado à festa – o que procuraremos comentar ao longo desse estudo – buscarão a companhia dos encarnados que são como eles.

         Buscando o significado da palavra “Carnaval” num dicionário de etimologia (que estuda a origem e a evolução das palavras) lemos que ela vem do latim clássico carnem levare ou carnis levale, que significa na tradução literal “abstenção da carne”. Levale significaria “tirar”, “levar” ou “afastar”. Alguns estudiosos do assunto diriam que o segundo elemento da palavra seria formado, na realidade, pela palavra vale, que significa “adeus”, formando o significado de “adeus à carne”[3]. A explicação estaria relacionada ao fato de que o Carnaval é comemorado no período que antecede à quaresma pascoal, quando se deveria praticar a abstenção de carne, prática ligada aos rituais da Igreja Católica.

O Espírito Bezerra de Menezes, no livro “Nas fronteiras da Loucura”, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, fala em “carne nada vale”, “cuja primeira sílaba de cada palavra compôs o verbete carnaval”[4]. Refere-se à postura daqueles que, participando dos abusos que são possíveis na festa, não respeitam o próprio corpo físico, instrumento precioso de realizações e crescimento espiritual.
A historiadora Rachel Soihet, num artigo publicado na Revista Tempo (do Departamento de História da UFF), analisa alguns estudos das ciências humanas sobre o Carnaval. O primeiro que ela aborda é o de Julio Caro Baroja. Para ele, a festa não teria uma origem pagã, ainda que, nele, permanecessem incluídas várias festas com essa origem e que também aí se destacassem os “valores pagãos da vida”, contrastando com o período de exaltação do sofrimento e do luto da quaresma. Entende que o Carnaval seria “filho dileto do cristianismo”, uma vez que a forma com que se apresenta desde a Idade Média europeia está ligada à ideia de quaresma. Para ele, “a alegria e os excessos do carnaval só tem sentido como catarse preparatória para justificar a entrada na quaresma”[5]. Assim,

a razão de tudo isso estaria numa busca do equilíbrio social, baseando-se num ou mais períodos de desequilíbrio aparente, durante os quais a sociedade se precipita de um extremo ao outro. Tese conservadora do carnaval como força estabilizadora, destinada à manutenção da ordem (...).[6]

         Mikhail Bakhtin, filósofo e pensador russo, pelo contrário,

remonta ao paganismo para explicar as origens desta festa, considerando-a inserida na cultura popular de vários milênios; para ele, é nítida a identificação do carnaval com as saturnais romanas, cujas tradições permaneceram vivas no carnaval da Idade Média. [7]

         Além disso, o autor diz que as festas religiosas na Idade Média possuíam um aspecto cômico, popular e público. Mesmo “as cerimônias e os ritos civis da vida cotidiana eram acompanhados pelo riso, quando os bufões e os “bobos” assistiam às funções do cerimonial sério e parodiavam seus atos” [8]. Criavam uma espécie de segundo mundo e uma segunda vida ao lado do mundo oficial, com seu tom sério. Esse filósofo tenta estabelecer uma relação desses fatos com um passado mais remoto. Segundo ele, nas etapas mais primitivas da história humana, quando não havia classes sociais nem Estado,

ocorria plena igualdade entre os aspectos sérios e cômicos da divindade, do mundo e do homem. Ambos eram sagrados e oficiais. (...) Com o regime de classes e do Estado, não há como manter direitos iguais para ambos os aspectos; modifica-se o sentido das formas cômicas, que adquirem um caráter não-oficial, transformando-se em formas fundamentais de expressão da sensação popular do mundo, da cultura popular. [9]

         Para ele, as festas oficiais, comandadas pelos donos do poder, serviam para reforçar e sancionar o regime em vigor. As diferenças da hierarquia eram destacadas intencionalmente, sendo a finalidade delas a consagração da desigualdade. “O carnaval, por outro lado, era sinônimo de liberação e abolição de hierarquias, privilégios, regras e tabus”[10].

         No ano de 1939, Chico Xavier recebeu duas mensagens sobre o Carnaval. A primeira delas pelo Espírito Humberto de Campos, em Março, que foi publicada no livro “Novas Mensagens”, editado pela FEB. A outra, em Julho de 1939, pelo Espírito Emmanuel. Nas duas mensagens os autores espirituais lastimam que os governantes apoiem a realização da festa. Não por acaso. Na década de 1930, o Carnaval foi institucionalizado pelo governo de Getúlio Vargas e o samba passou a simbolizar a música nacional. O governante queria pegar carona na popularidade do ritmo musical que, também, fortaleceu-se durante o período.

         Descrevendo o panorama espiritual da cidade do Rio de Janeiro durante o período do Carnaval, Manoel Philomeno de Miranda fala-nos em “densas nuvens psíquicas de baixo teor vibratório que encobriam a cidade”[11]. Segundo ele,

as mentes, em torpe comércio de interesses subalternos, haviam produzido uma psicosfera pestilenta, na qual se nutriam vibriões psíquicos, formas-pensamento de mistura com entidades perversas, viciadas e dependentes, em espetáculo pandemônico, deprimente.[12]

         Formas-pensamento são criações mentais. Quando pensamos, nossos pensamentos criam formas que são mais ou menos duráveis, conforme o nosso empenho em alimentá-las, ou seja, ficarmos pensando direto, durante muito tempo naquilo. Vibriões psíquicos são semelhantes a micróbios físicos e resultam da viciação mental e/ou emocional da consciência, em atitudes ou pensamentos desequilibrados. Essas nuvens psíquicas descritas pelo Espírito são o resultado dos pensamentos viciosos dos encarnados somados ao dos desencarnados que lhes compartiam a experiência no Carnaval. Manoel Philomeno de Miranda diz-nos que “as duas populações – a física e a espiritual, em perfeita sintonia – misturavam-se, sustentando-se”[13]. Lembram-se do que falou Kardec? Os Espíritos ligados à vida material, apegados aos seus prazeres, sentem falta deles e procuram encarnados que possuam as mesmas tendências e os mesmos gostos que eles para incitá-los a buscar os prazeres que sentem falta.

O ambiente espiritual era tão ruim e a quantidade de desencarnados participando da festa era tão grande que Manoel Philomeno de Miranda assim descreve:

A multidão de desencarnados, que se misturava à mole humana em excitação dos sentidos físicos, dominava a paisagem sombria das avenidas, ruas e praças feericamente iluminadas, mas cujas luzes não venciam a psicosfera carregada de vibrações de baixo teor. Parecia que as milhares de lâmpadas coloridas apenas bruxuleavam na noite, como ocorre quando desabam fortes tempestades.
Os grupos de mascarados eram acolitados por frenéticas massa de seres espirituais voluptuosos, que se entregavam a desmandos e orgias lamentáveis, inconcebíveis do ponto de vista terreno.
Outros, compostos de verdugos que não disfarçavam as intenções, buscavam as vítimas em potencial para alijá-las do equilíbrio, dando início a processos nefandos de obsessões demoradas. [14]

            O ambiente espiritual era tão denso e tão pesado que o autor espiritual, para nos fazer entender o que via, comparou-o a uma noite de chuva quando vemos, muito mal, as lâmpadas dos postes. Para além dos Espíritos que, apegados aos prazeres da vida material, buscavam os foliões para tentarem desfrutar, com eles, destes prazeres, temos outros Espíritos que, mal intencionados, buscavam aproximar-se das pessoas para prejudica-las, retirando-lhes o equilíbrio, a fim de darem início a processos de natureza obsessiva. O desequilíbrio de um instante pode comprometer-nos seriamente. Quantos cometem crimes porque não souberam controlar-se? Quantos matam ou espancam porque não tiveram um pouco mais de paciência? Nossas ações, por simples que nos possam parecer em dado momento, podem gerar efeitos duradouros para nós e para nossas eventuais vítimas que não nos perdoem.

         Por que os Espíritos maus investem contra nós? Allan Kardec, na pergunta 465 indaga aos Espíritos que colaboraram na elaboração de “O Livro dos Espíritos”:

465. Com que fim os Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal?
“Para que sofrais como eles sofrem”.
a) – E isso lhes diminui os sofrimentos?
“Não; mas fazem-no por inveja, por não poderem suportar que haja seres felizes.”
b) – De que natureza é o sofrimento que procuram infligir aos outros?
“Os que resultam de ser de ordem inferior a criatura e de estar afastada de Deus.”
466. Por que permite Deus que Espíritos nos excitem ao mal?
Os Espíritos imperfeitos são instrumentos próprios a pôr em prova a fé e a constância dos homens na prática do bem. Como Espírito que és, tens que progredir na ciência do infinito. Daí o passares pelas provas do mal, para chegares ao bem. A nossa missão consiste em te colocarmos no bom caminho. Desde que sobre ti atuam influências más, é que as atrais, desejando o mal; porquanto os Espíritos inferiores correm a te auxiliar no mal, logo que desejes praticá-lo. Só quando queiras o mal, podem eles ajudar-te para a prática do mal. Se fores propenso ao assassínio, terás em torno de ti uma nuvem de Espíritos a te alimentarem no íntimo esse pendor. Mas, outros te cercarão, esforçando-se por te influenciarem para o bem, o que restabelece o equilíbrio da balança e te deixa senhor dos teus atos.” [15]

         Além disso, Manoel Philomeno de Miranda fala-nos que muitos foliões que se vestem de forma grotesca e assustadora foram obter inspiração para suas fantasias e máscaras

em visitas a regiões inferiores do Além, onde encontraram larga cópia de deformidades e fantasias do horror de que padeciam os seus habitantes em punição redentora, a que se arrojavam espontaneamente.
As incursões aos sítios de desespero e loucura são muito comuns pelos homens que se vinculam aos ali residentes pelos fios invisíveis do pensamento, em razão das preferências que colhem e dos prazeres que se facultam no mundo íntimo. [16]

         Mais uma vez, onde está o nosso tesouro, estará o nosso coração. Allan Kardec, em “O Livro dos Espíritos” estuda a “Emancipação da alma”. Pergunta, então, aos Espíritos nobres se, durante o sono, a alma permanece repousando junto ao corpo físico, ao que eles respondem que

Não, o Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos. [17]      

         Assim, através do sono, pelos sonhos, estamos em relação com os Espíritos com os quais simpatizamos, com os quais temos afinidades. Quando somos bons e temos interesse real e compromisso efetivo com nosso crescimento espiritual, quando dormimos, vamos encontrar-nos com os Bons Espíritos, superiores a nós, que nos levam para reuniões onde estudamos e, na medida de nossas possibilidades, ajudamos-lhes em algumas atividades que desenvolvem. Por outro lado, se levamos a vida “na flauta”, descompromissados com nosso próximo, vivendo egoisticamente apenas para nossos prazeres e satisfações materiais, vamos, quando dormirmos, entrar em contato com os Espíritos que tenham os mesmos gostos e os mesmos defeitos que nós. Assim, se formos viciados em bebidas, drogas ou sexo, estaremos na companhia daqueles Espíritos que alimentam os mesmos vícios.

         Ainda sobre as fantasias, o autor espiritual nos conta que alguns deles,

que usam hoje imitações dos trajes antigos, são as próprias personagens que retornam ao proscênio do mundo, falidos lamentavelmente, imitando com carinho e paixão a situação que indignificaram quando a exerciam. Muitos nobres que enlouqueceram na ociosidade, agora meditam em profundas frustrações que os tornam insatisfeitos; monarcas que vulgarizaram a investidura com que mergulharam no mundo para servir, repetem os textos do drama da vida, em situações ridículas, amarfanhados; religiosos que corromperam os altos compromissos, ora estão crucificados nos madeiros invisíveis dos problemas íntimos que os amarguram; vencedores que se não venceram, neste momento revestem-se de não esquecidas indumentárias, servindo de bufos para as multidões que os aplaudem e criticam, que os invejam e perseguem com os seus preconceitos não menos nefastos; burgueses frívolos que expiam sob duras injunções morais o tempo perdido... [18]

         Deus a ninguém esquece e seus trabalhadores do Bem estão vigilantes enquanto, muitas vezes, nós não estamos. Manoel Philomeno de Miranda conta-nos que os Bons Espíritos, interessados no nosso progresso espiritual, montam postos de atendimento para encarnados e desencarnados em necessidade nesses dias tumultuosos. Segundo ele, existe um posto central, que fica localizado

em praça arborizada, no coração da grande metrópole, com diversos subpostos espalhados em pontos diferentes, estrategicamente mais próximos dos lugares reservados aos grandes desfiles e às mais expressivas aglomerações de carnavalescos. [19]

         O local é o Campo de Santana, no Centro da cidade e o posto tem a direção espiritual de Bezerra de Menezes. Assim, onde haja aglomerações de foliões, estarão, a postos, os trabalhadores do bem no outro plano da vida para socorrer-lhes. Muitos dos Espíritos que aí colaboravam eram ligados a familiares que estavam, ainda, no corpo físico, interessados em auxiliá-los, como também a todos os outros que precisassem. O autor espiritual nos conta que muitos Espíritos, em estado lastimável, davam-se conta, durante o calor da festa,

da inutilidade dos caprichos que sustentava, chorando copiosamente, em arrependimentos sinceros, inesperados. Cansados da busca fútil, despertavam para outros valores, recebendo imediato auxílio, desde que, onde se encontram as necessidades reais, logo surge o amparo próprio distendido em atitude socorrista. [20]

Muitos buscam a festa para que possam esquecer-se dos seus problemas e desafios que, ao final, na quarta-feira de cinzas, estarão lá, esperando-os, da mesma maneira e, talvez, até agravados pelas atitudes insanas que podem ser tomadas durante o período. Encarnados e desencarnados, vinculados que estamos aos erros de muitas encarnações, dos quais temos dificuldades de nos libertar, não sofreremos para sempre. Bezerra de Menezes diz-nos que “saturados pelo sofrimento e cansados das experiências inditosas, o homem, por fim, regenerar-se-á ao influxo da própria dor, e buscará sôfrego fruir o amor que lhe lenificará as íntimas inspirações da alma”.[21]  Ou seja, nos cansaremos de fugir de nós mesmos, dos nossos problemas, e, os encararemos com valor, com propósitos de mudança de vida. A Doutrina Espírita ajuda-nos, enormemente nesse processo, esclarecendo-nos que somos Espíritos imortais, vivendo uma experiência temporária no corpo de carne. As dores e sofrimentos que eventualmente encaremos são instrumentos de resgate de nossos erros do passado e ferramentas de crescimento para a melhoria do nosso futuro. Não estamos sozinhos. Através da prece, podemos estabelecer relações com os Bons Espíritos que vem ao nosso socorro inspirar-nos bons pensamentos e boas resoluções, fortalecendo-nos para as lutas do dia a dia. O exercício do bem fará com que atraiamos a companhia desses Bons Espíritos, afastando-nos, por consequência, dos que nos querem o mal.

No período do Carnaval que se aproxima, que evitemos o tumulto da festa e utilizemos o tempo disponível para descanso do corpo, bem como para estudos e reflexões que possam alimentar a alma nossa alma de conhecimentos novos. Que possamos orar para aqueles que, encarnados e desencarnados, estejam vinculados, ainda, aos festejos. Assim, seremos úteis aos Bons Espíritos e os ajudaremos em suas atividades nesse período tumultuoso que, um dia, o deixará de ser. Quando espiritualizar-nos, quando deixarmos de lado o exagero da bebida, dos vícios de qualquer natureza e equilibrarmos nossas emoções, todas as nossas celebrações e festas terão outro caráter: o de uma alegria pura e sadia, o de uma confraternização de almas que não desejam explorar-se, mutuamente, pelo contrário, que se querem bem e que pretendem compartir a felicidade.




[2]KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, p. 190. (comentário da pergunta 317). Grifos meus.
[3] Disponível em: http://www.dicionarioetimologico.com.br/carnaval/ Último acesso em 17 de Fevereiro de 2017.
[4] FRANCO, Divaldo P. Nas Fronteiras da Loucura. Salvador: LEAL, p. 69.
[5] SOIHET, Rachel. “Reflexões sobre o carnaval na historiografia – algumas abordagens”. Disponível em: http://www.historia.uff.br/tempo/artigos_livres/artg7-8.pdf Último acesso em 18 de Fevereiro de 2017, p. 3.
[6] Idem.
[7] Idem, p. 5.
[8] Idem, p. 6.
[9] Idem.
[10] Idem, p. 7.
[11] FRANCO, Divaldo. Nas Fronteiras da Loucura, op. cit., p. 25.
[12] Idem, p. 26.
[13] Idem.
[14] Idem, p. 67.
[15] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 248. Grifos meus.
[16] FRANCO, Divaldo. Nas Fronteiras da Loucura, op. cit., p. 68.
[17] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 221. Pergunta 401. Grifos do autor.
[18] FRANCO, Divaldo. Nas Fronteiras da Loucura, op. cit., p. 149.
[19] Idem, p. 69.
[20] Idem, p. 127 e 128.
[21] Idem, p. 72.